quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ó Paí, Ó

 Para variar um pouco, vou falar um pouco de cinema nacional, que muitas vezes é deixado de lado diante dos blockbusters arrasa-quarteirão que vemos sendo anunciados o tempo todo.

No caso, falar de "Ó Paí, Ó" (sim, "paí" com acento, eu cometo vários erros aqui, mas esse tá certo), filme de Monique Gardenberg de 2007. que originou uma série na Globo no ano seguinte.

O filme se passa no Pelourinho, mostrando os dias que antecedem o carnaval naquela parte da Bahia.

Mas o que torna esse filme mais interessante é o fato de que, mesmo mostrando vários estereótipos, nenhum deles se mostra forçado, ou seja, homossexuais, pais de santo, a bahiana com seu vestido rodado branco vendendo acarajé e cocada, os turistas, os cantores de axé, e muitos outros são mostrados de uma forma que é possível acreditar neles.

Digo isso porque em muitos filmes nacionais mais populares é difícil encontrar isso, normalmente os tipos são tão forçados que a impressão que dá é que eles só fizeram aquele filme pra ganhar um dinheirinho entre uma novela e outra.

Agora em Ó Paí, Ó (nossa como é chato digitar o nome desse filme :P) os momentos de comédia intercalados com aqueles que mostram as dificuldades da vida pobre naquele local e outros problemas como o racismo e os atritos entre diferentes religiões parecem ser bem factíveis.

Especialmente no caso do racismo, existe um trecho do filme que me chamou mais a atenção, um momento em que Roque (artesão, cantor, e personagem de Lázaro Ramos) tem uma discussão com Boca (malandro, personagem de Wagner Moura) com relação ao pagamento de um serviço que Roque prestou a Boca.

Boca, no caso, um malandro visivelmente racista, tenta mudar os termos do pagamento que deve a Roque, e deixa bem claro que, por ser negro, Roque deve aceitar sem reclamar apenas metade do combinado.

Vou transcrever aqui a resposta dada por Roque:

Eu sou negro sim, mas por acaso negro não tem olhos Boca? HEIN? Negro não tem mão, não tem pau, não tem sentido Boca? HEIN? Não come da mesma comida? Não sofre das mesmas doenças Boca? HEIN? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente SUA, não sua o CORPO, tal como um branco? Boca! HEIN? Quando vocês dão porrada na gente não sangra igual meu irmão? HEIN? Quando vocês fazem graça a gente não ri? Quando vocês dão tiro na gente porra, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo, também nisso vamos ser CARALHO!
Se existir melhor resposta dada a um racista, eu estou por conhecê-la.

E se isso não bastasse, o filme tem uma reviravolta de tirar o fôlego no fim, fazendo que você termine de assistir uma "comédia" pensando muito sobre a realidade do país em que vivemos.

Roque e Boca, discutindo formas de pagamento

Roque "trabalhando"

Vários tipos juntos, dançando no bar da "Neusão"
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